Contexto
Com a inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), por força da Portaria MTE nº 1.419/2024 e da NR-1, é comum surgir a dúvida: se a avaliação psicossocial gera uma classificação própria (favorável, moderada, desfavorável) e o PGR usa uma matriz de risco, por que as duas escalas são diferentes? Há quem chegue a perguntar se será preciso "redimensionar" o instrumento psicossocial para o formato da matriz, ou se uma classificação deveria substituir a outra.
Este artigo esclarece que se trata de dois instrumentos distintos, de naturezas e finalidades diferentes, aplicados em etapas distintas do processo. Eles não competem nem se contradizem: um alimenta o outro.
A escala da avaliação psicossocial: classificação por dimensão
O instrumento de avaliação psicossocial (no nosso caso, baseado no COPSOQ) é uma ferramenta de coleta e mensuração de percepção. O trabalhador responde a um conjunto de perguntas usando uma escala Likert, na qual cada opção de resposta recebe um valor numérico. Em nossa metodologia, essa escala vai de 0 a 4.
A partir das respostas, calcula-se a média de cada dimensão (liderança, demandas de trabalho, relações interpessoais, etc.) e essa média é enquadrada em uma de três faixas, pelo método de tercis — a amplitude da escala (0 a 4) dividida em três partes iguais, gerando os pontos de corte 1,33 e 2,66:
- Dimensões positivas (fatores de proteção): pontuação maior que 2,66 indica situação favorável; entre 1,33 e 2,66, situação moderada; abaixo de 1,33, situação desfavorável.
- Dimensões de risco: a lógica se inverte, pois nelas uma pontuação mais alta representa maior exposição.
O ponto central a reter: essa escala opera sobre um único eixo — a média da dimensão cai numa faixa. O resultado é uma fotografia da percepção dos trabalhadores sobre aquele aspecto do ambiente de trabalho. Ele não é, por si só, o nível de risco ocupacional; é um insumo que subsidia a avaliação de risco.
A matriz do PGR: avaliação do risco ocupacional
A matriz de risco do PGR é uma ferramenta de avaliação de risco, padronizada pela NR-1 e aplicada a todos os agentes (físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, mecânicos, etc). Ela não pergunta nada ao trabalhador. Em vez disso, classifica o risco a partir do cruzamento de dois eixos: severidade e probabilidade.
A severidade é determinada pela magnitude do dano potencial à saúde. A probabilidade é estimada com base na exposição, nas condições operacionais e, sobretudo, na eficácia das medidas de controle existentes. O cruzamento dos dois, numa matriz 5x5, produz o nível do risco — de Trivial a Intolerável — que é então registrado no Inventário de Riscos e orienta a priorização das ações.
A matriz é a linguagem comum da NR-1. É ela que permite que o risco psicossocial seja comparado, no mesmo inventário, com o risco de ruído, de um agente químico ou de uma exigência ergonômica.
A diferença essencial, lado a lado
A confusão mais frequente é tratar a classificação em três níveis como se fosse uma "matriz 3x3". Não é. Três níveis de classificação ao longo de um eixo é uma régua de faixas; matriz pressupõe o cruzamento de dois eixos (linha e coluna).
Como os dois se conectam
Embora distintos, os dois instrumentos operam em sequência dentro do GRO. O fluxo é o seguinte:
A avaliação psicossocial coleta a percepção dos trabalhadores via escala Likert e classifica cada dimensão em favorável, moderada ou desfavorável. Esse resultado entra então como subsídio para estimar a probabilidade na matriz do PGR, uma dimensão classificada como desfavorável sinaliza um fator organizacional mal controlado, o que tende a elevar o nível de probabilidade. A severidade é estabelecida separadamente, conforme a gravidade do agravo à saúde potencialmente associado. Do cruzamento de severidade e probabilidade na matriz resulta o nível de risco, que é documentado no Inventário de Riscos e direciona o plano de ação.
Em outras palavras: a classificação da dimensão é o dado de entrada; a matriz é o instrumento de saída que traduz esse dado (junto com a severidade) para a linguagem padronizada de risco da NR-1.
Por que não se converte uma escala diretamente na outra
Três razões tornam tecnicamente incorreto "transformar" a escala da dimensão na matriz:
- Diferença de natureza. A escala da dimensão mede percepção (um eixo); a matriz mede risco (dois eixos cruzados). São grandezas conceitualmente distintas.
- Ausência de severidade na escala psicossocial. A classificação da dimensão não contém, isoladamente, qualquer informação sobre a gravidade do dano potencial. Sem severidade, não há como produzir um nível de risco — apenas a probabilidade não basta.
- Função da matriz como denominador comum. A matriz existe justamente para padronizar todos os riscos ocupacionais sob o mesmo critério. Substituí-la pela escala de tercis quebraria essa padronização e impediria a comparação do risco psicossocial com os demais agentes no inventário. psicossocial.
A escala de classificação das dimensões psicossociais mede percepção e classifica cada dimensão em três níveis, ao longo de um eixo único. A matriz do PGR avalia risco, classificando-o pelo cruzamento de severidade e probabilidade. A primeira é etapa de coleta e mensuração; a segunda é etapa de avaliação e registro do risco. Uma alimenta a outra, mas não se confundem, não são intercambiáveis e não se convertem diretamente uma na outra. "Três níveis" não equivale a "matriz 3x3", porque matriz exige dois eixos, e a classificação da dimensão possui apenas um.
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